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40k pra dividir

O suor escorrendo no rosto nem era o problema maior. O coração disparado, quase saindo pela boca, muito menos. A respiração ofegante estava mais ou menos sob controle, na medida do possível para a situação.
As pernas? Bom, as pernas pareciam bem. O esforço era consideravelmente grande, mas as duas respondiam bem e não reclamavam apesar da inclinação do terreno ser maior que o número de marchas da minha velha bike.
Qual foi o problema, então? Olha, foram muitos.

Estamos no km 30 de uma pedalada de 41K, subindo a Serra do Itapocuzinho, em Schroeder, norte de Santa Catarina.
A subida começou lá atrás, de mansinho, depois de uma parada pra foto do grupo de 35 ciclistas que se inscreveram no projeto de cicloturismo da prefeitura.

A estrada asfaltada é uma subida daquelas que de carro você nem percebe a inclinação, mas que pedalando você precisa forçar um pouco o ritmo pra sair do lugar. Mas a paisagem é tão absurdamente linda, os morros tão imponentes, que ninguém se apressa.

Logo começa a terra, a inclinação aumenta um pouco e a estrada parece não ter fim. Ainda brinquei com quem pedalava ao lado, perguntando se faltava muito e a resposta foi um espantado “nem começou!”. Eu realmente não sabia o que me esperava.

Não, não sou eu. Essa é só pra vcs terem ideia do que era a subida

Uma subida inclinada, daquelas que pede 27 marchas (e eu só tinha 21), e o que é pior: uma curva. Pra quem, como eu, não conhecia a estrada, nada pior do que uma curva fechada. Você não sabe onde acaba o top, então não tem como dosar a energia ou tentar se convencer a pedalar mais um pouco pra chegar até o fim.
Decidi que até ver o tamanho da encrenca eu ia pedalando. No meio da curva, tudo aconteceu muito rápido: olhei pra cima e vi que tinha mais uns 30 ou 40 metros de subida em “S”. Olhei pro lado e vi dois colegas descendo da bike e decidindo empurrar o resto do caminho. Boca seca, coração disparado, cabeça fervendo dentro do capacete, decidi fazer o mesmo.

Sem drama, sem arrependimento, sem frustração.

Esse sou eu empurrando a velha morro acima

Lá em cima, pernas ainda querendo ter cãimbras, só recebi incentivo. Quem subiu pedalando comemorava a conquista com quem subiu a pé ou de carona no carro da organização. Olhando as fotos do incansável Ivânio Laube, organizador do pedal, vi que mais ou menos metade do grupo empurrou suas bikes morro acima.

Já no morro abaixo, um downhill sensacional: várias curvas fechadas e uma mata densa a ponto de fazer sombra na estrada. Eu que adoro um vento na cara ganhei um prêmio pelo esforço feito pra chegar até ali.

Muita gente junta pedalando. Coisa boa.

Sempre fiz o estilo lobo solitário pra andar de bike. Moro num bairro cheio de morros e perto de áreas rurais, então fica fácil simplesmente subir na magrela e sair pedalando meio sem destino, deixando pra decidir o caminho mais divertido na hora.
Nesse primeiro pedal em grupo, aprendi algumas lições fundamentais.
Estudar o caminho antes ajuda a não se empolgar e gastar energia na hora errada. Chegar todo mundo junto é muito mais legal que chegar na frente. Empurrar a bike não é vergonha pra ninguém. Como também não é vergonha se sua bike custou R$ 300 ou 30 mil.

E o principal: no minuto em que você termina, já está fazendo planos para tentar de novo.

PS. Tem que agradecer ao Edison do http://extremebiking.zip.net/ pelo convite, carona e parceria.

E mais fotos do Ivânio aqui: http://www.schroeder.sc.gov.br

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