Category Archives: ô vida boa

Envelheço na cidade

Se deus é brasileiro, então São Pedro é jaraguaense. Só isso explica o quanto chove nessa terra abençoada e o quanto a gente gosta daqui mesmo com esse clima mais propício aos anfíbios do que aos humanos.

Aqui, reclamamos mais do tempo do que ingleses e americanos de Seattle (seatlenses?) juntos. Se chove dias seguidos, ficamos com um humor do cão. Se o sol brilha por uma semana, já ficamos com medo da seca, embora um fenômeno desses seja mais improvável que cupim morrer da fome em madeireira.

(Aliás, “morrer da fome” é uma das expressões típicas jaraguaenses mais legais)

O que importa é que mesmo a chuva cancelando o desfile comemorativo do aniversário (surpresa!) ou enchendo demais os rios e a paciência, uma coisa ficou bem clara desde o primeiro dia que entrei na cidade: Jaraguá envolve.

Não sei se é a entrada da cidade que vai revelando aos poucos o que ela tem a oferecer, ou se é essa mistura de rio e trilho, de ruas estreitas e um centro que parece feito em espiral, atraindo tudo e todos como se fosse o triângulo das bermudas.

Quando me fixei na cidade de vez, comprando casa e carro, transferindo título de eleitor e levando a esposa para dar a luz no hospital do morro, descobri o prazer da vida nos bairros. Uma vida quase rural, de quintal, cachorro, horta e trilhas. Vida de chinelo e bicicleta, de carros de luxo recém lançados e pequenas fazendas de donos velhinhos que falam um alemão abrasileirado.

Essa é a Jaraguá que eu estou conhecendo há quase 15 anos. Uma cidade que se abre aos poucos, que sempre tem uma surpresa guardada e que muda rápido. Rápido como o tempo vira e o sol volta a esquentar as coisas. Quer saber? Em Jaraguá nem chove tanto assim. E é muito bom de se viver.

PS. A cidade que faz aniversário no mesmo dia do escritor e do padroeiro dos motoristas não nega a coincidência. Tem uma vida literária agitada, um número de jornais e revistas muito acima da média de cidades do mesmo porte e motoristas habilidosos e arrojados. Talvez até demais, mas deixa quieto.

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Barba, pelo e bigode

Eu e meus dois irmãos homens compartilhamos de um mesmo problema genético, embora eles insistam até hoje que eu sou adotado: um dia sem fazer a barba e já regredimos alguns milhões de anos de evolução humana, virando Neandertais modernos.
Meio de brincadeira, a gente sempre falou que o sonho seria fazer a barba num barbeiro daqueles de antigamente: navalha na carne, mas sem perder a ternura. Virou mais um item da lista “coisas pra se fazer antes de bater as botas”.
Desde a véspera de natal isolado num sitio com dezenas de parentes, combatendo o calor com litros e litros de cerveja e longos banhos de piscina, eis que fiquei uma semana sem ver minha cara no espelho. E a idéia de riscar esse item da lista foi tomando corpo.

Esse sou eu no sítio

Com mais uma semana de férias no interior de São Paulo, dessa vez na cidade onde minha esposa nasceu e onde hoje se contam cerca de 25 mil almas vivas, fico sabendo por um cunhado que o mesmo barbeiro que fazia barba, cabelo e bigode do meu falecido sogro tinha acabado de mudar de endereço, mas ainda estava no ramo.
Fui atrás do homem, a dois quarteirões da casa onde estava. Parei numa barbearia tão nova, limpa e branca, com um velhinho tão simpático trabalhando, que acabei ficando por ali mesmo, crente que tinha acertado.
Avisei que era minha primeira vez, “ah, mas veio logo no melhor, não vai querer saber de fazer barba sozinho”, e o papo foi indo.
Desde 1962 pilotando uma cadeira, seu Zé acabou de mudar de lugar, ocupando o que antes era um consultório odontológico (o que explica a brancura do lugar). Encheu minha cara de espuma e foi logo atacando, de luva cirúrgica, o lado direito da minha cara barbuda.
Não sei se foi a emoção do momento, mas desconfio que ele passava a navalha no ritmo do Danúbio Azul: tananananã-tantan-tantan. E nesse ritmo, relaxei e aproveitei. Nem a interrupção para seu Zé atender o celular e confirmar que queria 2 frangos caipiras praquele dia atrapalharam.
10 minutos e 10 reais depois, saí de lá com uma verdadeira bunda de nenê no lugar da cara. Além de pelos das orelhas, nariz e até sobrancelhas aparados.
Agora é assim. Final de ano, entre natal e ano novo, a tradição vai ser deixar a barba crescer e entregar a cara para o seu Zé mais próximo. Pode não ser garantia que tudo se realize no ano que vai nascer, mas com certeza vai ser mais um prêmio por um ano suado e brigado.

Esse sou eu tirando onda de barba feita

PS. Eu realmente tenho uma lista de “coisas para se fazer antes de esticar as canelas” e a cada item riscado na lista  eu acrescento mais uns 2 ou 3. Se você não tem sua lista, aproveite o fim de ano pra começar. Porque você pode não acreditar que a data de validade da Terra é 20.12.2012, mas pelo menos acredite que viver com objetivo é muito mais divertido. Eu até escrevi isso no outro blog: http://www.tumblr.com/blog/15m15k

Feliz 2012, 2013, 2014…

E viveram felizes para sempre

Mais uma daquelas propagandas pra você esquecer assim que acaba, com mensagens do tipo: viva a vida, aproveite, seja feliz, o poder está nas suas mãos.

Só o que eles não falam é que um belo dia você acorda marido, pai, adulto, cheio de responsabilidade e feliz. Porque por mais que a publicidade tradicional tenha criado a gente para viver na balada, todo homem que sabe o que quer, sabe dar e querer da mulher e toda mulher quer mesmo é um homem pra chamar de seu, mesmo que seja eu. E agradeça se acaso tiver alguém que você gostaria que estivesse sempre com você, na rua, na chuva, na fazenda…

pinguins

E se mesmo depois de 13 anos juntos, se mesmo depois de 9 meses reformando a casinha de sapê, vocês ainda continuarem com um brilho nos olhos, se ainda continuarem sentindo calor em cada abraço, se tiverem uma princesinha fazendo bagunça pela casa, então queridos, só existe uma explicação: vocês foram feitos um para o outro.

A vida não é conto de fadas, a vida é de verdade. Tem um monte de coisa chata, tem um monte de problema. Mas tudo fica mais leve quando a gente divide por 2. E mais ainda quando divide por 3.

Eu acredito nessa história de felizes para sempre. Todo dia.