Passarinho Queimado

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Assistir programas de debate futebolístico já foi um prazer, hoje é um infortúnio mesmo em um domingo glorioso como o de ontem, em que o Alviverde Imponente destruiu o arquiinimigo com 3 do Bom Baiano Obina.

Nas mesas redondas de hoje e de outrora, os idiotas da objetividade são também os idiotas da enrolação e da encheção de linguiça. Do óbvio, dos números e estatísticas. Como bem diz meu concunhado preferido, “estatística deve ser usada como o bêbado usa o poste de luz: para apoio, não iluminação.”

É aí que entra o canário que morreu no incêndio. Nelson Rodrigues contava essa história vez por outra em crônicas e entrevistas. O repórter que viu um princípio de incêndio tão vagabundo que poderia ser apagado com um regador. Valente e guerreiro, nosso jornalista sem diploma (nem existia faculdade naquele tempo) aumentou o fogo (na matéria, que fique claro), criando um incêndio de Nero, em que um pobre canário morreu tostado.

No dia seguinte, toda a cidade chorava o passarinho morto, aliviando as próprias tristezas na história da ave que nunca existiu e fazendo a economia girar com a venda de jornais.

Para Nelson, não havia jornalismo possível sem passarinho: “A arte jornalística consiste em pentear ou desgrenhar o acontecimento”.

As crônicas de futebol que ele publicou na Manchete Esportiva, revista que durou de 1955 a 59, fazem parte do filé mignon do Anjo de Boca Suja. O teatro e os contos d’A Vida Como Ela É são antológicos e revolucionários, mas é no jornalismo (sem diploma) que ele brilha de verdade. Era na redação enfumaçada que ele escrevia de tudo, era no papel jornal que ele desafiava o peixe do dia seguinte.

As crônicas semanais falavam de craques e pernas de pau, de técnicos e juízes ladrões (indispensáveis), de campos pequenos, onde “todos os caminhos estão abertos para a emoção direta e integral”, de jogadores que “correm feito coelhinho de desenho animado”, de uma torcida que “tinha uma ênfase, uma grandiloquência de ópera” e de salas de imprensa que tinham “um luxo asiático de consultório de psicanalista”.

Aliás, em tempos de jornalistas famintos por furos e por comida, “nenhum sanduíche poderia aparecer num reservado de imprensa sem correr risco de vida”.

Não são só as frases de efeito e expressões inventadas. O melhor do livro é a visão de jogo aguçada e humana, de quem vê um time ter um jogador expulso e aposta na virada do jogo impulsionada pela inferioridade numérica. Isso é enxergar além do óbvio.

Por essas e outras, vale ler e comprar essa edição de luxo da Agir, pra ter na estante e ler todo domingo.

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