50 tons de literatura sacana decente

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Quando explode um fenômeno editorial, sempre tenho uma certeza e uma dúvida: o livro é ruim, mas será que serve pra criar novos leitores?

Nos fenômenos adolescentes, como do menino mágico ou dos vampiros brilhantes, até tenho esperança, pela idade do público alvo. Cabecinhas em formação são mais suscetíveis a mudar de hábitos se uma experiência é agradável.

Mas os malfadado 50 tons, além de ser beeeeeeem pior escrito, estilo literatura de banca de revista (Sabrinas e Júlias que me perdoem), pega um público mais adulto. E esse público não necessariamente vai procurar outros livros depois da ressaca de terminar o terceiro da série.

Pra dar um empurrãozinho, aí vai 5 livros com a mesma pegada de romance e sacanagem, mas com muito mais doses de qualidade. Como toda lista, é totalmente da cabeça e biblioteca do autor do texto.

Dona Flor e seus dois maridos – Jorge Amado

Um bom começo. Texto fácil e ritmado, universo bem conhecido por causa das novelas e minisséries e a boa e velha fantasia do triangulo amoroso. Um marido certinho e confiável, que sustenta a casa e um marido (que por acaso está morto) doido e safado. Tecnicamente, nem adultério é. Vai dizer que vocês não queriam isso, mulheres?

A Casa dos Budas Ditosos – João Ubaldo Ribeiro

Outro autor baiano, mas que nesse romance teve a missão de escrever o capítulo Luxúria da coleção Plenos Pecados. João Ubaldo mete o pé na jaca, criando um fictício manuscrito em que uma senhora conta as memórias de uma vida dedicada à libertinagem, sacanagem e vadiagem. Uma putaria só.

As Ligações Perigosas – Choderlos de Laclos

Se você acha moderninho o romance entre Steele e Grey, pense outra vez. Estamos falando agora de um livro do século XVIII. A maravilha aqui é a narrativa toda construída através de cartas trocadas entre um homem e uma mulher. Ao contrário do que você pode imaginar, eles não têm um caso – mas tem uma tonelada de tensão sexual e desejo mútuo. Já virou um belo filme com a Michelle Pfeifer e John Malkovich e um outro péssimo com um casal adolescente.

O Amante de Lady Chatterley – D. H. Laurence

Marido concentrado demais na carreira, esposa acaba nos braços (e outras partes do corpo) do ex-soldado misterioso empregado da fazenda. O livro foi lançado e banido no fim da década de 20 do século passado, por causa das descrições explícitas dos encontros amorosos dos dois. Explícitas pra 1928, que fique claro, mas não menos empolgantes.

Madame Bovary – Gustave Flaubert

Outro romance baseado em marido chato, esposa entediada. Mas essa se arrisca mais e com mais parceiros e é mais antigo, do meio do século XIX. E o texto é absurdamente bem escrito, frase por frase, até o final que eu não vou contar pra não estragar.

Bonus Track: um livro muito complicado, que poucos leitores conseguem “enfrentar” (tanto que está na minha lista de releituras), mas que não podia deixar de colocar aqui.

Ada ou Ardor – Vladimir Nabokov

Amor pra vida toda e mais um pouco. E ponto final. Isso se o casal apaixonado não fosse de irmãos, que acham que são primos (desculpe pelo spoiler). É um livro que vai e volta, os personagens se encontram e desencontram desde crianças, e ainda há mais uma mulher gravitando em torno deles. Eu sei, é complicado e até pesado demais. Mas a vida não é simples.

Update: dei uma passada no sebo velho de guerra ontem e tem literalmente pilhas de 50 tons pelo chão. E tem muita Cassandra Rios pelas estantes. Fica a dica.

Play it again, 007

Em 50 anos de cinema, 007 apanhou muito. Não dos vilões, mas de quem deveria estar do seu lado: produtores, roteiristas, atores e músicos contratados para compor e cantar o tema do filme.

Claro que é um fogo amigo perdoável. Cada um faz o que pode e cada época tem seus modismos. E mesmo com alguns filmes e trilhas sonoras bem fraquinhas, nosso agente secreto chega aos 50 com a sensação de que agora sim, a vida começa pra valer.

Não vou discutir quem é o melhor ator, porque já fui fã do Pierce Brosnan quando ele era o cara, nutria um respeito cult por Sir Connery e Mr. Moore e agora acho que o Daniel Craig arrebenta o coco quando a porrada rola solta e não necessariamente quebra a sapucaia quando entorna o smoking.

Mas uma coisa eu posso deixar registrado, após escutar várias e várias vezes todas as músicas tema dos 20 e poucos filmes: nobody does it better than women.

Todas as músicas tema de 007 com voz de homem padecem do mesmo mal: os caras simplesmente ficam envergonhados, sabem que não são half the man que deveriam ser, quando comparados com o homem que estão cantando. E olha que sou da época do super videoclipe de A view to a kill dos coxinhas do Duran Duran e acho que Sir Paul McCartney não falha nunca na cara do gol com Live and Let Die.

E as mulheres, ah as mulheres. Elas simplesmente caem de boca no homem, sem duplo sentido e sem bater o martini. Cantam com paixão, tesão e admiração.

Minha versão preferida ainda é a do Garbage, The worl is not enough, seguida muito de perto pela atual da Adele. Essa, aliás, acaba ganhando na categoria “música que melhor aproveita os acordes originais do tema clássico”. E o mais engraçado é que 007 é a única coisa que eu tolero dessas duas.

E a Madonna, bem, a Madonna se saiu bem melhor com o tema do maior vilão do 007: Austin Powers.

Envelheço na cidade

Se deus é brasileiro, então São Pedro é jaraguaense. Só isso explica o quanto chove nessa terra abençoada e o quanto a gente gosta daqui mesmo com esse clima mais propício aos anfíbios do que aos humanos.

Aqui, reclamamos mais do tempo do que ingleses e americanos de Seattle (seatlenses?) juntos. Se chove dias seguidos, ficamos com um humor do cão. Se o sol brilha por uma semana, já ficamos com medo da seca, embora um fenômeno desses seja mais improvável que cupim morrer da fome em madeireira.

(Aliás, “morrer da fome” é uma das expressões típicas jaraguaenses mais legais)

O que importa é que mesmo a chuva cancelando o desfile comemorativo do aniversário (surpresa!) ou enchendo demais os rios e a paciência, uma coisa ficou bem clara desde o primeiro dia que entrei na cidade: Jaraguá envolve.

Não sei se é a entrada da cidade que vai revelando aos poucos o que ela tem a oferecer, ou se é essa mistura de rio e trilho, de ruas estreitas e um centro que parece feito em espiral, atraindo tudo e todos como se fosse o triângulo das bermudas.

Quando me fixei na cidade de vez, comprando casa e carro, transferindo título de eleitor e levando a esposa para dar a luz no hospital do morro, descobri o prazer da vida nos bairros. Uma vida quase rural, de quintal, cachorro, horta e trilhas. Vida de chinelo e bicicleta, de carros de luxo recém lançados e pequenas fazendas de donos velhinhos que falam um alemão abrasileirado.

Essa é a Jaraguá que eu estou conhecendo há quase 15 anos. Uma cidade que se abre aos poucos, que sempre tem uma surpresa guardada e que muda rápido. Rápido como o tempo vira e o sol volta a esquentar as coisas. Quer saber? Em Jaraguá nem chove tanto assim. E é muito bom de se viver.

PS. A cidade que faz aniversário no mesmo dia do escritor e do padroeiro dos motoristas não nega a coincidência. Tem uma vida literária agitada, um número de jornais e revistas muito acima da média de cidades do mesmo porte e motoristas habilidosos e arrojados. Talvez até demais, mas deixa quieto.

O Pilates

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Nós, seres humanos, somos uns teimosos. Queremos as coisas do nosso jeito e vamos adaptando o mundo conforme vai dando na nossa telha.

Mas antes das cavernas, vivíamos em árvores, balançando pra lá e pra cá e de vez em quando quebrando um galho. Mas a teimosia fez com que a macacada reunida descesse para o chão, começasse a andar ereta e o estrago foi feito: na coluna.

Não tem ninguém nesse mundo que não tenha tido uma dor nas costas na vida. Minha porção de problemas na coluna é um pouco maior, já que eu sou um pouco maior do que a média.

Sabe bambu que vai crescendo até que enverga na ponta? Esse sou eu. Depois de muito tempo enrolando, finalmente me matriculei no Pilates, seguindo sugestão de médicos, fisioterapeutas, amigos, parentes e macacos em geral.

O Pilates está tão na moda que já abriu espaço para variações e releituras típicas do mercado de fitness, que precisa sempre inventar uma novidade para atrair clientes preguiçosos.

Porque tem uma turma que adora novidade. Claro que essa turma se divide em dois: os que realmente praticam a novidade até aparecer uma mais nova, e os que acham que só fazendo a matrícula já queimam 1 milhão de calorias.

Mas se você está pensando em fazer Pilates de raiz, aquele inventado na I Guerra Mundial, eu recomendo. Recomendo que você leia antes esse pequeno guia pra saber o que te espera. Pra facilitar, dividi em 3 tipos de exercícios:

Rocky, o lutador

É, meu amigo, minha amiga, quem pensa que Pilates é só alongamentozinho tá muito enganado. Tem horas que Eye of the Tiger fica tocando na sua cabeça enquanto você sente que tá no meio do nada, na neve, fazendo abdominal com um tronco de árvore. Todo o cenário e a trilha sonora são imaginários, menos a dor no abdômen, que é bem real e vai te acompanhar por mais uns 2 dias.

Cirque du Soleil

Um pé na frente, apoiado no aparelho extensor; o de trás fica em ponta equilibrado na bola, vira a cabeça 45 graus, a mão esquerda descreve um arco voltaico enquanto a direita segura no calcanhar de Aquiles: agora mexe a sobrancelha 10 vezes pra cada direção. Quero ver você conseguir.

Marques de Sade

Você será preso por cordas e ficará em posições humilhantes: de 4, pernas arreganhadas como se fosse um exame ginecológico, deitado. E vai suar, vai tremer de tanto esforço e vai gostar. Vai gostar muito e isso é preocupante.

Última dica: além de ótima atividade física, lembre que o Pilates é atividade mental. Rir de si mesmo quando não consegue fazer uma posição é fundamental. Assim como tentar de novo.

Só não demonstre muita empolgação com exercícios novos, porque senão você pode virar cobaia de professor criativo.

2 perdidos numa noite não tão suja

A admiração pelos dois era diferente. Um, porque antes de pular o muro pra virar escritor era jornalista da Folha numa época que eu lia  (e gostava) muito da Folha. O outro, gênio dos quadrinhos, acabou se mostrando gênio da literatura também. Xico Sá e Lourenço Mutarelli, dois ídolos que eu nunca iria imaginar que tinham tanto em comum.

Vinte anos depois de ler os primeiros trabalhos deles, estava dividindo uma mesa com os dois e mais alguns velhos e novos amigos. Palestras feitas, autógrafos escritos, fotos tiradas, éramos apenas companheiros de boteco, falando bobagens de adulto e rindo como crianças.

Eu, que não gosto dessa coisa de tiete, pude tirar várias dúvidas sobre o trabalho de cada um e ainda me sentir mais próximo, mais amigo. Porque depois de algumas horas em volta de duas torres de chopp e muita carne gordurosa, todo homem que se preze vira amigo de infância.

E amigo de infância não conta nada que o amigo falou na mesa de bar, nem sob tortura.